O governador eleito de Minas Gerais, Cleitinho (Republicanos), criticou na quinta-feira (15), da tribuna do Senado Federal, a situação fiscal do Estado e as condições em que receberá a administração estadual. As declarações ocorreram após o governo mineiro encaminhar à Assembleia Legislativa um projeto de retificação da Lei Orçamentária Anual (LOA) de 2027, que eleva a previsão de déficit de R$ 8,87 bilhões para R$ 10,51 bilhões.
A revisão representa um aumento de R$ 1,64 bilhão no resultado negativo projetado para o próximo exercício financeiro. Segundo os números apresentados, a estimativa de despesas passou de R$ 153,87 bilhões para R$ 155,50 bilhões, enquanto a previsão de receitas permaneceu em R$ 144,99 bilhões. A elevação das despesas está relacionada, sobretudo, à revisão dos valores previstos para o Tribunal de Justiça de Minas Gerais.
O cenário preocupa a equipe de transição de Cleitinho, especialmente em relação à capacidade do Estado de cumprir os compromissos assumidos na renegociação da dívida com a União, estimada em R$ 187,51 bilhões, no âmbito do Programa de Pleno Pagamento de Dívidas dos Estados (Propag).
Déficit fiscal amplia tensão entre atual governo e sucessor
O debate sobre o equilíbrio das contas públicas já havia sido levantado durante a campanha eleitoral. Em 21 de setembro, durante debate promovido pela Record Minas, Gabriel Azevedo (MDB), que posteriormente passou a integrar a equipe de transição de Cleitinho, questionou o governador Mateus Simões (PSD) sobre as medidas previstas para compatibilizar receitas e despesas estaduais.
Na ocasião, o Propag também esteve no centro das discussões. O programa estabelece condições específicas para a renegociação das dívidas estaduais, incluindo regras fiscais que devem ser observadas pelos governos participantes.
As divergências entre Simões e Cleitinho continuaram após o encerramento da disputa eleitoral. Durante reunião com a equipe responsável pela transição, transmitida pela internet, o atual governador levantou dúvidas sobre a capacidade financeira do Estado para cumprir compromissos futuros e mencionou a possibilidade de dificuldades para o pagamento da folha de pessoal já em janeiro.
Mateus Simões, por sua vez, afirmou que os salários dos servidores seriam pagos até 6 de janeiro, data da posse do novo governador, e que o décimo terceiro salário seria quitado ainda em 2026.
Cleitinho promete auditoria de contratos públicos
Em seu pronunciamento no Senado, Cleitinho afirmou que pretende acompanhar a contratação de novas despesas durante a transição e cobrar transparência do atual governo. O governador eleito também declarou que pretende auditar contratos de órgãos e empresas públicas estaduais, com o objetivo de identificar possíveis oportunidades de economia.
A iniciativa, segundo ele, deverá contribuir para viabilizar propostas apresentadas durante a campanha, entre elas a redução das alíquotas do Imposto sobre a Propriedade de Veículos Automotores (IPVA).
“Vou atrás da Cemig e de todos os órgãos estatais para fazer auditoria, rever contrato por contrato”, declarou o senador, ao mencionar também o Departamento de Estradas de Rodagem de Minas Gerais (DER-MG).
Cleitinho ainda criticou a possibilidade de o Estado assumir novos compromissos financeiros sem articulação prévia com a futura administração. Para o governador eleito, o desequilíbrio fiscal poderá comprometer a capacidade de investimento e a execução de políticas públicas.
Disputa política dá lugar ao desafio da gestão
Durante o discurso, Cleitinho retomou as críticas feitas por integrantes do atual governo ao Partido dos Trabalhadores (PT) em relação à situação financeira de Minas Gerais nos anos anteriores. O senador questionou a atual administração por apresentar dificuldades fiscais semelhantes às que, segundo ele, eram atribuídas às gestões passadas.
O governador eleito também afirmou que pretende conduzir uma administração voltada à solução de problemas concretos da população, sem aprofundar disputas ideológicas.
A mudança de governo ocorre em um contexto de pressão sobre as contas estaduais, com projeção de déficit bilionário e compromissos relacionados à dívida pública. Nesse cenário, a capacidade de conciliar despesas, receitas, investimentos e obrigações financeiras estará entre os principais desafios da próxima gestão.
A discussão sobre o orçamento de 2027 e as medidas que serão adotadas para equilibrar as contas deverá ganhar relevância durante a transição e a preparação do novo governo, especialmente diante das promessas eleitorais e das demandas dos servidores públicos e da população mineira.
Foto: Divulgação