Especialistas apontam que o fenômeno climático pode agravar ondas de calor, secas, incêndios e chuvas intensas em diferentes regiões do país; adaptação às mudanças climáticas é considerada urgente.
As ondas de calor ainda são um dos desastres climáticos menos reconhecidos no Brasil e podem se tornar mais frequentes e intensas com a chegada de um novo episódio de El Niño. O alerta foi feito pela professora do Departamento de Meteorologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Renata Libonati, durante um debate sobre os possíveis impactos do fenômeno climático no país.
Libonati, que também integra o Comitê de Especialistas em Monitoramento Climático da Organização Meteorológica Mundial (OMM), apresentou dados que evidenciam os impactos das altas temperaturas sobre a saúde da população.
Segundo a pesquisadora, uma análise baseada em dados do Sistema Único de Saúde (SUS) de 14 regiões metropolitanas brasileiras identificou aproximadamente 50 mil mortes associadas a ondas de calor entre 2000 e 2020.
Para Libonati, o número demonstra que o problema ainda recebe atenção insuficiente. Segundo ela, as ondas de calor diferem de outros desastres porque seus efeitos sobre a saúde podem ocorrer de maneira gradual, sem a percepção imediata de uma tragédia.
A pesquisadora destacou ainda que a ideia de que a população brasileira estaria naturalmente adaptada às altas temperaturas pode contribuir para a subestimação dos riscos.
El Niño pode agravar eventos extremos
As declarações foram feitas durante o painel “O que esperar do El Niño”, realizado na terça-feira (11), no Museu do Amanhã, no Rio de Janeiro. O encontro também contou com a participação dos pesquisadores Paulo Artaxo, da Universidade de São Paulo (USP), e José Marengo, do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden).
O El Niño é um fenômeno climático caracterizado pelo aquecimento anormal das águas do Pacífico Equatorial, capaz de alterar os padrões de circulação atmosférica e influenciar o clima em diferentes partes do planeta.
De acordo com os especialistas, o fenômeno pode contribuir para temperaturas excepcionalmente elevadas em 2026 e intensificar determinados eventos extremos, embora os efeitos variem conforme a região do país.
Além dos impactos sobre a saúde, Renata Libonati destacou a relação entre El Niño, ondas de calor, secas e incêndios florestais. Segundo a pesquisadora, a ocorrência simultânea desses fenômenos pode criar condições mais favoráveis para a propagação do fogo.
Dados apresentados por ela indicam que, nos últimos 40 anos, as condições de elevado risco de incêndios aumentaram cerca de 18% durante anos de El Niño nas regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste.
Impactos serão diferentes em cada região
O pesquisador José Marengo ressaltou que o El Niño não produz os mesmos efeitos em todas as regiões brasileiras. No Sul, o fenômeno costuma estar associado ao aumento das chuvas, elevando o risco de enchentes.
No Norte e no Nordeste, a tendência é de redução das precipitações e aumento do risco de seca. No Centro-Oeste, o cenário pode incluir atraso no início da estação chuvosa e maior ocorrência de ondas de calor.
Já no Sudeste, a previsão é de temperaturas elevadas e maior irregularidade na distribuição das chuvas.
“O El Niño não cria problemas. Ele agrava a situação de problemas que já existem”, resumiu Marengo.
O pesquisador também alertou que os efeitos do fenômeno não se restringem às condições meteorológicas. Alterações no regime de chuvas e nas temperaturas podem afetar setores como agricultura, transporte, geração e fornecimento de energia e economia.
Adaptação climática é apontada como prioridade
Participante dos três últimos relatórios do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), Paulo Artaxo defendeu que o Brasil acelere as medidas de adaptação diante de um cenário de temperaturas mais elevadas e maior frequência de eventos climáticos extremos.
Segundo o pesquisador, o país já apresenta um aquecimento médio próximo de 2°C, acima da média global, o que reforça a necessidade de preparação para novos eventos extremos.
Artaxo avaliou que experiências recentes, incluindo os desastres registrados em diferentes regiões do país, deveriam servir como referência para aprimorar os mecanismos de prevenção e resposta.
Ele também ressaltou que as políticas de adaptação precisam considerar as desigualdades sociais, já que os impactos das ondas de calor e de outros eventos extremos não são distribuídos de maneira uniforme entre a população.
Moradores em situação de maior vulnerabilidade podem estar mais expostos aos riscos devido às condições de moradia, ao acesso limitado aos serviços de saúde, à necessidade de trabalhar ao ar livre e à dificuldade de utilizar equipamentos de refrigeração.
O pesquisador citou, como exemplo, a diferença entre famílias que possuem condições de utilizar ar-condicionado durante períodos de calor extremo e moradores de comunidades que vivem em imóveis com estruturas que retêm mais calor, permanecendo expostos a temperaturas elevadas inclusive durante a noite.
Para os especialistas, o cenário reforça a necessidade de investimentos em prevenção, monitoramento, infraestrutura urbana, saúde pública e planejamento climático, especialmente nas áreas mais vulneráveis.
A avaliação apresentada no encontro é de que a preparação antecipada pode reduzir impactos sociais e econômicos e evitar que eventos climáticos extremos se transformem em tragédias de maiores proporções.
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