Imóvel no Centro Histórico teve grafismos descobertos durante reforma e agora é reconhecido pelo Iphan como sítio arqueológico de valor histórico e cultural.
Uma casa localizada na Rua Conde de Bobadela, antiga Rua Direita, nº 134, no Centro Histórico de Ouro Preto, revelou um importante patrimônio arqueológico ligado à cultura africana e ao período da escravidão no Brasil. Durante uma reforma realizada em 2017, foram encontrados desenhos e grafismos preservados por quase três séculos no porão do imóvel.
As inscrições, associadas à presença de pessoas escravizadas que viveram no local, retratam cenas do cotidiano, símbolos de resistência, ancestralidade africana e possíveis referências à travessia atlântica. O imóvel passou a ser oficialmente protegido após parecer técnico emitido em março de 2026 recomendar sua homologação como sítio arqueológico pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan).
A casa foi adquirida pela atual família proprietária na década de 1980. Segundo o administrador Philipe Passos, de 63 anos, o imóvel havia sido comprado por seu pai como presente para sua mãe, com a intenção inicial de transformá-lo em restaurante.
“Meu pai sempre acreditou no potencial turístico de Ouro Preto desde a década de 1960 e adquiriu alguns imóveis no centro histórico”, relatou.
A descoberta ocorreu durante uma reforma estrutural realizada em 2017. Trabalhadores identificaram marcas e desenhos nas paredes do porão da residência, um espaço escuro, de difícil acesso e que só recebeu energia elétrica após a aquisição da casa pela família.
De acordo com Philipe, o local possui pé-direito baixo, com cerca de 1,50 metro, além de condições precárias de circulação. Essas características ajudaram a manter os desenhos preservados ao longo dos séculos.
Pesquisas revelaram referências africanas
Dois anos após a descoberta, o historiador e arqueólogo Leonardo Klink iniciou estudos sobre o imóvel em seu doutorado na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Durante a pesquisa, ele identificou cerca de 26 desenhos produzidos com diferentes técnicas, incluindo incisões na parede, grafismos com pigmentos escuros e avermelhados e composições mistas.
Entre as figuras encontradas estão representações de animais, aves, embarcações, formas geométricas, elementos vegetais e imagens que remetem a tradições africanas.
Segundo o pesquisador, alguns desenhos só puderam ser visualizados com auxílio de iluminação especial e tratamento digital, devido ao desgaste provocado pelo tempo.
Um dos registros mais significativos mostra pessoas em um espaço cercado por muros e torres, utilizando um pilão — estrutura que, segundo Klink, possui semelhanças com construções do interior da África Ocidental.
Outro desenho apresenta uma espécie de máscara feita em grafite com fibras inseridas, associada a tradições culturais da África Centro-Ocidental.
Já uma terceira imagem, considerada uma das mais intrigantes pelos pesquisadores, mistura traços humanos e animais, com chifres e dentes pontiagudos.
A representação de uma embarcação também chama atenção dos estudiosos. Segundo Klink, ela pode remeter tanto a barcos utilizados em regiões africanas quanto a navios europeus dos séculos XVIII e XIX, levantando a hipótese de ligação simbólica com a travessia atlântica feita por pessoas escravizadas.
Reconhecimento como sítio arqueológico
O Iphan confirmou que o imóvel foi oficialmente registrado como sítio arqueológico no Sistema Integrado de Conhecimento e Gestão (SICG), sob a denominação “Inscrições Afrodiaspóricas”.
Segundo o instituto, a preservação do espaço representa não apenas a conservação física dos vestígios históricos, mas também a valorização das narrativas da população negra na formação cultural e social de Minas Gerais.
O órgão destaca ainda que sítios arqueológicos dessa natureza possuem papel importante na educação patrimonial, no fortalecimento da identidade cultural e na reparação histórica.
Espaço poderá receber visitação pública
A expectativa dos proprietários é que o imóvel futuramente seja aberto à visitação pública. Atualmente, o espaço passa por adaptações e estudos técnicos supervisionados pelo Iphan para definição das medidas de conservação e preservação. Para Philipe Passos, preservar o local é uma responsabilidade histórica.
“Não é apenas uma questão de interesse, mas de obrigação com o passado e com o futuro. Uma obrigação com quem veio antes de nós e com aqueles que sofreram as consequências da escravização”, afirmou.
A previsão é de que o espaço possa receber visitantes a partir do próximo ano, após conclusão dos estudos e adequações necessárias.
O Iphan também destacou que a criação do Comitê Permanente para Preservação do Patrimônio Cultural de Matriz Africana (COPMAF) representa um avanço no reconhecimento e valorização do patrimônio cultural afro-brasileiro no país.
Por Cassiano Aguilar
Foto: Leonardo Kink / Divulgação