A Operação Royalties Perdidos, deflagrada pela Polícia Civil de Minas Gerais, trouxe à tona um esquema criminoso sofisticado que vai além do furto de equipamentos e da lavagem de dinheiro: escancara perdas milionárias que recaem diretamente sobre municípios mineradores, já historicamente penalizados pela exploração de seus recursos naturais.
Com mandados de busca e apreensão cumpridos em Contagem, Esmeraldas, Ouro Preto, Mariana, Santa Bárbara e João Monlevade, a ação resultou no bloqueio de mais de R$ 3 milhões em contas bancárias dos investigados. Ainda assim, o volume financeiro apreendido levanta questionamentos sobre quanto já foi efetivamente desviado antes da atuação do Estado, valores que poderiam estar sendo revertidos em saúde, educação, infraestrutura e desenvolvimento regional.
Coordenada por policiais civis especializados em crimes patrimoniais de Ouro Preto, a investigação identificou uma organização criminosa estruturada para furtar, receptar e comercializar ilegalmente equipamentos de mineração, além de ocultar recursos por meio de operações financeiras suspeitas. Um dos exemplos mais emblemáticos do esquema é a apreensão de uma correia transportadora avaliada em cerca de R$ 500 mil, recuperada em João Monlevade, onde um investigado foi preso em flagrante por receptação.
Prejuízo coletivo e crime organizado
O caso teve início após denúncia de uma mineradora que atua no distrito de Antônio Pereira, em Ouro Preto. A partir daí, os investigadores reuniram provas por meio de análises bancárias, fiscais e telemáticas, além de relatórios técnicos, que confirmaram a atuação coordenada do grupo. O impacto, no entanto, não se limita às empresas vítimas diretas dos furtos.
Especialistas apontam que esquemas dessa natureza reduzem arrecadações, afetam a cadeia produtiva local e comprometem os royalties que deveriam retornar à população, agravando desigualdades e pressionando ainda mais os cofres públicos municipais.
Bens de luxo, armas e dinheiro oculto
Com autorização judicial, a Polícia Civil realizou o sequestro de valores, bloqueio de veículos pelo sistema Renajud e apreensões que incluem veículos de luxo, uma lancha aquática, dispositivos eletrônicos, documentos e armas de fogo, entre elas um rifle e uma pistola calibre 9 milímetros. Todo o material será submetido à perícia.
Ao todo, cerca de 90 policiais civis participaram da operação, em uma ação integrada entre delegacias de diferentes regiões do estado, evidenciando a complexidade e a capilaridade do esquema investigado.
Investigação avança, mas alerta permanece
Segundo o delegado responsável pelo inquérito, Maurício Campos Lauria Júnior, a operação cumpriu integralmente as medidas judiciais deferidas e representa um passo importante na desarticulação da organização criminosa. As investigações, contudo, continuam, com o objetivo de identificar todos os envolvidos e dimensionar a totalidade dos prejuízos causados.
Enquanto isso, o caso reacende o debate sobre a vulnerabilidade do patrimônio público e privado ligado à mineração, a necessidade de fiscalização mais rigorosa e o fortalecimento de políticas que impeçam que crimes desse porte sigam drenando recursos que pertencem, em última instância, à sociedade.
Foto: PCMG / Divulgação